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No escuro

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De : PÚBLICO
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Vamos falar de cinema e de outras coisas também. Para entender o mundo através dos filmes, com Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara.

Art Sciences sociales
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    Épisodes
    • Wim Wenders encostado à parede: “diz alguma coisa política!”
      Feb 20 2026

      “Temos de nos manter fora da política, porque se fizermos filmes políticos então entramos no campo da política. Mas [o cinema é] o contrapeso da política, o contrário da política. O nosso é o trabalho do povo, não é o dos políticos.”

      A frase do realizador alemão Wim Wenders, na conferência de imprensa do Festival de Berlim há uma semana, onde preside ao júri da competição, fez explodir uma polémica. Surgiram graffiti nas paredes a acusá-lo de cobardia.

      A discussão sobre se o cinema deve ou não ser político esconde, na verdade, uma outra: devem os membros do júri da Berlinale tomar posição em relação ao que se passa na Palestina perante o silêncio do festival que é financiado pelo Governo da Alemanha que apoia Israel?

      É legítimo "encostá-los à parede"? Ou será que Wenders, cineasta da geração do Novo Cinema Alemão, questionador do "milagre económico alemão" construído sobre a amnésia, sobre a rasura da memória do nazismo, quis dizer outra coisa e de forma mais subtil, com aquele "o cinema é o contrapeso da política", que é um statement de consequências políticas, limitando-se a ser fiel a si mesmo e a uma forma de estar no mundo que os seus filmes revelam?

      É preciso olhar para o seu cinema para entender a sua frase e colocá-la num contexto mais profundo — algo a que as conferências de imprensa de hoje em festivais, presas ao impacto dos títulos nas redes sociais, tendem a escapar.

      Mas há outra coisa: tem havido sempre uma relação esquizofrénica a propósito da relação do cinema com a política ou, dito de outra forma, com a política dentro do cinema. Não é recorrente ler-se ou ouvir-se que um palmarés de um festival foi "político", declaração essa que aponta para uma menorização? Onde ficamos então?

      Veja-se: um dos filmes que segue a caminho dos Óscares, Foi Só Um Acidente, do realizador iraniano Jafar Panahi, recebeu a Palma de Ouro de Cannes em 2025 e também ele não se livrou logo na altura de um olhar de desconfiança: "foi um prémio político"; "se não fosse iraniano, seria considerado banal".

      Voltamos por isso ao filme de Panahi, uma das estreias do final do ano passado. É uma obra que coloca o Irão perante o que será um dilema depois de o regime cair: o que farão as vítimas de hoje quando tiverem oportunidade de se vingar dos seus carrascos? É uma questão moral, tanto mais actual quanto a pressão dos Estados Unidos sobre o país dos ayatollahs está a aumentar. Depois dos mais recentes protestos na República Islâmica, e da violenta repressão como resposta, Jafar Panahi, actualmente fora do país, na campanha para os prémios da Academia de Hollywood, tem dito em entrevistas que regressará a casa; mesmo que o preço a pagar seja ser preso (novamente).

      Sim, o cinema é político. O de Panahi certamente, mas o de Wenders também, de outra forma. Algo diferente é fazer política. É isso que discutimos neste episódio de No Escuro.

      No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).

      Vamos libertar o cinema. Vamos tentar entender o mundo através dos filmes.

      Vamos falar de cinema?

      Sim, e vamos falar de outras coisas também.

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      49 min
    • "A Voz de Hind Rajab": de Gaza a Auschwitz, o que pode um filme mostrar?
      Feb 13 2026

      Como documento enxertado num filme de reconstituição, a realizadora tunisina Kaouther Ben Hania utilizou a voz de uma criança palestiniana no momento em que ela pediu ajuda antes de ser abatida pelas forças israelitas.

      Hind Rajab, 6 anos, fugia de carro com a família do Norte de Gaza — estávamos a 29 de Janeiro de 2024 — quando o grupo foi surpreendido por um tanque. Os disparos mataram as seis pessoas que iam na viatura, e isso incluía os tios e os primos da criança, mas durante três horas houve contacto telefónico entre Hind Rajab, que inicialmente sobrevivera, com o ramo palestiniano da associação humanitária Crescente Vermelho, em Ramallah.

      Esforçavam-se por manter Hind Rajab calma e viva. Até finalmente se ouvir uma explosão e ela deixar de responder. Eram 19h. Os dois paramédicos, enviados com uma ambulância para socorrer a criança, foram também mortos.

      A câmara de Kaouther Ben Hania está colocada no cenário que reconstitui as instalações do Crescente Vermelho; actores interpretam os voluntários que atenderam a chamada de Hind Rajab. Mas a voz que os actores ouviram no set era a verdadeira voz da criança; o ficheiro com o som tinha sido partilhado enquanto tudo decorria nesse 29 de Janeiro de 2024 para tentar impedir a consumação da tragédia.

      A Voz de Hind Rajab, Grande Prémio do Júri em Veneza 2025, recepção tão apoteótica quanto céptica no festival, atravessa uma fronteira moral, mistura o que não deve ser misturado, o jogo da ficção com o irremediável da realidade, a vida e a morte?

      É uma das questões que marca este episódio de No Escuro. O que nos levou a meter na conversa outras obras igualmente reveladoras do poder do cinema e da sua violência, como Com a Alma na Mão Caminha, de Sepideh Farsi, e No Other Land, realizada por um quarteto israelo-palestiniano liderado por Basel Adra (palestiniano) e Yuval Abraham (israelita), títulos estreados o ano passado, este último até oscarizado, mas também um filme de 2015, O Filho de Saul, do húngaro Lazlo Nemes, em que o cinema vai a Auschwitz, que reactivou os dogmas sobre os limites da figuração do Holocausto.

      No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).

      Vamos libertar o cinema. Vamos tentar entender o mundo através dos filmes.

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      41 min
    • Como Ingmar Bergman nos leva de "Valor Sentimental" a João Canijo
      Feb 6 2026

      Uma estreia, uma memória, um desaparecimento —​ tragicamente, e misteriosamente, ligados neste episódio.

      Valor Sentimental, do norueguês Joachin Trier, que chegou às salas portuguesas, é o "filme europeu do ano", segundo os prémios da Academia Europeia de Cinema. Chegará aos Óscares com nove nomeações.

      Valor simbólico, tem-no: com o seu arcaboiço memorialista, pendor reflexivo sobre o cinema, encarrega-se de personagens e temas que o cinema europeu em tempos fez seus até com vantagem sobre o cinema norte-americano — Ingmar Bergman, evidentemente... Foi numa época em que os filmes eram operações de prestígio visitadas por um público adulto, ardente e (mais) temerário.

      Para resumir: os grandes planos dos rostos, aqui de Stellan Skarsgaard, Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas, premiados e nomeados a prémios, voltam a ser eleitos, reeleitos, pelo ecrã.

      "Quando as pessoas dizem 'isto lembra-me Persona', 'isto lembra-me Fanny e Alexander'" — isto é, quis dizer Joachin Trier na entrevista que deu ao Ípsilon, quando as pessoas dizem que Valor Sentimental lhes lembra Bergman — "tomo isso como um elogio. Não quis roubar, não quis imitar, mas falemos disso então. Até porque na Noruega há muitos jovens que nunca ouviram falar de Ingmar Bergman. Que sortudo sou por ele ter existido. Bergman foi muito importante para Woody Allen. E a forma como Woody Allen lidou com essa presença, em filmes de uma enorme profundidade, é muito importante para mim".

      Falamos, então, de Ingmar Bergman neste episódio. De Sonata de Outono (1978), o título que juntou na Noruega os dois Bergman mais famosos da Suécia, Ingmar e Ingrid. História também, como em Valor Sentimental, do sentimento de abandono de uma filha.

      Mas vejam só: Sonata de Outono era um filme de cabeceira de João Canijo, que o terá inspirado para o díptico Mal Viver/Viver Mal.

      Canijo: o realizador português que desapareceu, aos 68 anos, a semana passada; Canijo: o cineasta português contemporâneo que foi colocado ou se colocou mais à margem — sendo o seu cinema vocacionado esplendidamente para o centro; o mais incompreendido, nunca hesitou em incomodar.

      Uma hipótese para esta relação complexa: ao contrário da era em que Bergman se tornou um cineasta do mainstream, o espectador de hoje vai em busca de epifanias e tem medo de se magoar.

      Oiça a conversa em No Escuro. É um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).

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      51 min
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