Épisodes

  • #15 | A Visão das Plantas, de Djaimilia Pereira de Almeida
    Dec 8 2025

    Almeida explora as limitações do direito formal para reconhecer e reparar traumas históricos intergeracionais, mostrando Severino retornando da guerra colonial mutilado não apenas fisicamente, mas na capacidade de narrar sua experiência, onde plantas "veem" o que ele não consegue expressar em palavras sobre violências que atravessam gerações. A obra revela como colonialismo deixa cicatrizes que persistem em sociedades pós-coloniais através de formas de exclusão que direito tradicional não sabe nomear nem reparar, questionando como desenvolver abordagens jurídicas sensíveis a traumas coletivos que transcendem experiências individuais - uma reflexão essencial para compreender limitações de sistemas de justiça baseados em danos individuais quando confrontados com violências sistemáticas que afetaram comunidades inteiras, especialmente relevante para debates sobre reparações históricas e reconhecimento de direitos de povos historicamente oprimidos.

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  • #14 | Canção para Ninar Menino Grande, de Conceição Evaristo
    Dec 1 2025

    Evaristo denuncia a necropolítica racializada do Estado brasileiro através da experiência dilacerante do luto materno, mostrando como violência policial contra jovens negros se naturalizou a ponto de mães negras saberem que podem ter que "ninar seus filhos para a morte" enquanto o sistema de justiça criminal opera seletivamente protegendo vidas brancas. A "canção de ninar" ironiza brutalmente essa normalização da morte negra, revelando como mães negras são sistematicamente privadas do direito ao luto público e à memória digna, expondo que genocídio da juventude negra não é falha do sistema, mas seu funcionamento normal - uma denúncia fundamental para compreender como racismo estrutural permeia todas as instâncias do direito brasileiro, da abordagem policial aos tribunais, perpetuando política de morte que trata determinadas vidas como descartáveis.

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    12 min
  • #13 | Nós, de Ievguêni Zamiátin
    Nov 24 2025

    Zamiátin antecipa como tecnologia pode criar formas sutis de totalitarismo através da regulamentação total da vida, mostrando D-503 vivendo no Estado Único onde transparência absoluta elimina privacidade e algoritmos matemáticos controlam trabalho, relacionamentos e sexualidade sem violência explícita, apenas através da convicção de que liberdade individual causa sofrimento coletivo. A obra explora como sistemas podem remodelar natureza humana eliminando subjetividade em nome da ordem, antecipando debates contemporâneos sobre privacidade digital e algoritmos de controle social - uma reflexão crucial para compreender como novas tecnologias podem ser instrumentalizadas por Estados e corporações para criar formas aparentemente benevolentes de dominação total, questionando limites éticos da regulamentação e vigilância em sociedades cada vez mais digitalizadas e monitoradas.

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    10 min
  • #12 | O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov
    Nov 17 2025

    Bulgákov usa a chegada do diabo em Moscou para contornar censura e expor verdades sobre poder soviético que discurso oficial não permitia expressar, mostrando Woland ironicamente exercendo justiça poética ao punir hipócritas e corruptos protegidos pelo sistema, revelando como literatura pode servir como tribunal alternativo quando instituições formais falham. A fantasia se torna mais reveladora que realismo porque cria espaços de verdade que regimes repressivos não conseguem controlar, demonstrando como humor e ironia podem ser ferramentas poderosas de resistência jurídica - uma análise fundamental para compreender como arte e cultura podem denunciar injustiças que sistemas oficiais ocultam, especialmente relevante em contextos onde liberdade de expressão enfrenta ameaças e onde literatura assume papel de preservação da memória e crítica social.

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    11 min
  • #11 | Fontamara, de Ignazio Silone
    Nov 10 2025

    Silone revela como o fascismo opera através da perversão sistemática de procedimentos legais, mostrando camponeses sendo despojados de terras através de burocracias que mantêm aparência de legalidade - contratos, carimbos e processos formalmente corretos que legitimam injustiças através da complexidade jurídica que comunidades vulneráveis não conseguem compreender nem contestar. A obra expõe como regimes autoritários preferem manipular instituições a destruí-las, usando legalidade formal para dar legitimidade à opressão, antecipando debates contemporâneos sobre lawfare e instrumentalização do direito para fins políticos - uma reflexão crucial para compreender como elites brasileiras usam sofisticação jurídica para oprimir comunidades sem recursos para navegar sistemas legais complexos, transformando tecnicismo em barreira à justiça.

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    12 min
  • #10 | Memorial do Convento, de José Saramago
    Nov 3 2025

    Saramago transforma a construção do convento de Mafra em metáfora sobre como grandes projetos do poder são sustentados por exploração sistemática de comunidades vulneráveis, mostrando a aliança entre Igreja, Estado e nobreza para usar trabalho popular em nome de ideais superiores que mascararam violência concreta. A obra desmonta retóricas do "bem maior" revelando seu custo humano real, questionando como sociedades avaliam trade-offs entre progresso e justiça social - uma crítica que antecipa dilemas contemporâneos sobre desenvolvimento econômico e direitos humanos, especialmente relevante para compreender como grandes obras de infraestrutura no Brasil operam com desapropriações, remoções e violências contra populações tradicionais, contando com marcos jurídicos que privilegiam interesses econômicos sobre direitos fundamentais das comunidades afetadas.

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    11 min
  • #09 | Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa
    Oct 27 2025

    Rosa explora territórios onde diferentes sistemas normativos colidem, mostrando Riobaldo navegando entre códigos de honra, lealdade e conhecimento da terra em um sertão que não vive em anomia, mas sob regras complexas baseadas em pactos locais e experiências concretas que questionam a universalidade de legalidades impostas de cima para baixo. A constante dúvida sobre existência do diabo espelha incerteza mais profunda sobre bem e mal em espaços onde categorias jurídicas tradicionais perdem sentido, revelando como diferentes comunidades podem desenvolver formas legítimas de regulação social - uma reflexão fundamental para repensar como direito brasileiro pode dialogar com sabedorias tradicionais ao invés de simplesmente substituí-las, reconhecendo pluralidade normativa como riqueza cultural e não como obstáculo à modernização.

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  • #08 | Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez
    Oct 20 2025

    García Márquez usa realismo mágico para revelar absurdos jurídicos reais da história latino-americana, mostrando como o massacre de três mil trabalhadores da banana é imediatamente apagado da memória oficial, demonstrando que poder econômico manipula narrativas legais para proteger interesses privados às custas de vidas humanas. A "solidão" representa isolamento político de povos cujas lutas são sistematicamente excluídas da história oficial, revelando como Estado se alia ao capital estrangeiro usando aparatos jurídicos não para fazer justiça, mas para legitimar injustiças através do esquecimento forçado - uma crítica que ilumina como grandes projetos econômicos no Brasil contemporâneo operam com violência sistemática contra comunidades tradicionais, contando com conivência ou omissão de instituições jurídicas que deveriam proteger direitos fundamentais.

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    13 min